terça-feira, 15 de dezembro de 2009

Governo



no desgoverno dos sonhos,
talvez púrpura do frio, talvez
cego de sol, talvez acorde

procuro palavras que
me entendam

como imagino coisas acesas
pelos lugares e não saboto
a vontade de deus


valter hugo mãe

sexta-feira, 11 de dezembro de 2009

Avi Buffalo



Demoro-me neste país indeciso
que ainda procura o amor
no fundo dos relógios,
que se abre
como se abrisse poros solitários
para que neles caiam ossos, vidros, pão.
Demoro-me
no ventre desta cidade
que nenhum navio abandonou
porque lhe faltou a água para a partida,
como por vezes desaparece a estrada
que nos conduz aos lugares
e ali temos que ficar.



Filipa Leal

quarta-feira, 9 de dezembro de 2009

Orangotang



Do mundo que malmolhe ou desolha não me defendo,
nem de mim mesmo, à força
de morrer de mim na minha própria língua,
porque eu, o mundo e a língua
somos um só
desentendimento


Herberto Helder

terça-feira, 8 de dezembro de 2009

The Helio Sequence




Às vezes tenho medo de esquecer tudo:
a casa onde nasci, o recreio
da escola, essas vozes
que lembram um copo de água
no verão.




Jorge Gomes Miranda

domingo, 6 de dezembro de 2009

Eugene McGuinness



Dormem entre nós dores que não
conheces. Adormeceste primeiro -
e o meu passado é um relógio antigo
que arrelia o silêncio. Se me tivesses

dito o teu nome quando chegaste,
podias fazer já parte destas memórias.



Maria do Rosário Pedreira

quarta-feira, 2 de dezembro de 2009

Atlas Sound



Num grão de areia o mundo inteiro ver
E numa flor do campo o firmamento -
Todo o Infinito em tua mão conter
E ter a Eternidade num momento.



William Blake

terça-feira, 1 de dezembro de 2009

Magic Wands




Procurou de entre todos aquele que mais amava.
Fê-lo em silêncio, afagando os cães
que envelheciam aos seus pés,
enquanto as mulheres iam cerzindo nos gestos
um rosário de sal.
Onde está o meu discípulo dilecto
que não o vejo, inquiriu.
Um homem lembrou-lhe então que partira
há muitas luas atrás,
carregando aos ombros um navio em chamas.

Desde esse dia a memória
não mais deixou de rondar a casa,
e o velho recolheu-se no jardim onde as estátuas
subiam às árvores com os olhos tão próximos da loucura.




Jorge Melícias

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