segunda-feira, 12 de outubro de 2009

Fanfarlo



a song
is a thief who's fled across rooftops
getting away with six colors
and leaving the red hour-hand
on 4 o'clock heaven
4 o'clock detonates
on the rooster's head
and it's 4 o'clock delirium

a song
is an ever hostile tree
across the border
it unleashes that promise
that wolf-pack feeding on tomorrow

a song
is a mirror that knows the body by heart
is the emperor of memory
is the waxen tongue
flame of talk
is the flower garden murtured by myth
is a steam locomotive
bursting into the church

a song
is the death of a singer
his death-night
pressed into black records
singing over and over and over



Bei Dao

domingo, 11 de outubro de 2009

Union Suit Characters



É nos actos, nos actos, frente a frente,
que os homens se conhecem
e raro nas verdades que mastigam
e divulgam no fumo das palavras.

Todavia, as palavras são os actos
mais puros dos poetas: carne viva,
sal pessoal de lágrimas ardidas
num colectivo mar que se evapora.
São também o tempero cristalino
da nascente futura, entre montanhas
Pardas.

Não me perguntes, pois, que fiz ou faço
ou quanto irei fazer (pouco, decerto,
mal cabendo num verso tão volátil!).

Mas olha-me nos olhos, firmemente,
e diz-me se te vês.

Que todo o verso é hálito comum
correndo em veias cósmicas. Poeira.
Parabólico voo. Estreita nave.
Celeste agricultura.
- De palavras.



António Luís Moita

sexta-feira, 9 de outubro de 2009

The Urban Voodoo Machine




tenho quase a certeza que existe uma clareira
uma casa térrea onde costumas esconder as mãos e
tentar a eternidade. interromper o interior das coisas e chamar-lhe destino
é sempre mais fácil do que inventar cartazes a anunciar o que se multiplica
do lado de fora. há um determinado alvoroço que poucos vêem quando
chegas e o mês que passou será sempre uma imitação mediana
dos teus olhos. agora há apenas a influência do vidro dentro da noite.
tenho quase a certeza que tu também sabes disto e da dificuldade de chegar
aos sítios que não estão assinalados nos mapas.



Susana Miguel

quarta-feira, 7 de outubro de 2009

Moriarty



Senhores jurados sou um poeta
um multipétalo uivo um defeito
e ando com uma camisa de vento
ao contrário do esqueleto


Sou um vestíbulo do impossível
um lápis de armazenado espanto
e por fim com a paciência dos versos
espero viver dentro de mim


Sou em código o azul de todos
(curtido couro de cicatrizes)
uma avaria cantante
na maquineta dos felizes


Senhores banqueiros sois a cidade
o vosso enfarte serei
não há cidade sem o parque
do sono que vos roubei


Senhores professores que pusésteis
a prémio minha rara edição
de raptar-me em crianças que salvo
do incêndio da vossa lição


Senhores tiranos que do baralho
de em pó volverdes sois os reis
sou um poeta jogo-me aos dados
ganho as paisagens que não vereis


Senhores heróis até aos dentes
puro exercício de ninguém
minha cobardia é esperar-vos
umas estrofes mais além


Senhores três quatro cinco e sete
que medo vos pôs na ordem ?
que pavor fechou o leque
da vossa diferença enquanto homem ?


Senhores juízes que não molhais
a pena na tinta da natureza
não apedrejeis meu pássaro
sem que ele cante minha defesa


Sou uma impudência a mesa posta
de um verso onde o possa escrever
ó subalimentados do sonho !
a poesia é para comer.


Natália Correia

segunda-feira, 5 de outubro de 2009

Wilco



Amo, para além
do muro vazio
a presteza do vento
que traz ao céu
o brilho lunar
o nó cego de luz
a estancar o sangue
do coração que se rasga
na cura de um beijo
como tu, mais nada.


Aldina Duarte

domingo, 4 de outubro de 2009

Theresa Andersson




(...)

Um dia, quando a minha memória de homem fugitivo
alcançar a idade de um deserto, debruçar-me-ei num poço e
tentarei beber o tempo esquecido do teu rosto. Estarei lucidamente
morto, eu sei, e os meus olhos já não prenderão a adolescência,
nem as imagens que dela se soltaram. E a minha cegueira surgirá
cercada por frondosas árvores e pássaros, mas não os verei mais.
O rosto, o teu rosto, já não conseguirá atrair-me para o fundo
circular do poço.

O tempo de sedução terminou. Terás de me tocar, terás de
trocar o tacto dos olhos pelo tacto dos dedos. Apenas persistirá o
jogo, a cumplicidade, e uma ténue vibração do corpo que se
perdeu contra o meu corpo.

Por isso me ergo daqui e atravesso estas imagens coladas às
paredes, e ao atravessá-las descubro que estou perdido, e
condenado também a perder-te.

Levanto-me do fundo de mim mesmo e abandono a casa, os
bens que herdei, e vou pela memória daqueles vestígios que se me
cravaram no interior das pálpebras, mas não semeio nem recolho
nada. Apenas persigo os passos que outrora abandonei pelas
cidades onde te procurei, antes mesmo de saber que existias.

E perco-me, perco-me onde a sombra dos corpos é um
sudário de melancolia sobre o mar. Mas, ainda aqui estou, quase
vivo, atento ao movimento perene de tuas mãos sobre o meu
corpo. E sem bússola, nómada até aos ossos, sigo pela noite onde
aportei, e não reconheço a casa que me destinaram para morrer.

(...)

As cidades seduziram-me com imagens de abismos
subterrâneos, vertigens de esperma que se vende, compra e troca. E sonhar
com essas cidades de medo e fascínio é ainda uma maneira de
saciar parte do desejo que me assola. Mas já só existo no que de
mim se cristalizou nas palavras, e é tão pouco...

De imobilidade em imobilidade a vida avançou, avançou
por ininteligíveis iluminações. Hoje, neste fim de século,
desloco-me sem saber como dentro das fotografias que revestem as paredes
deste quarto. E é-me indiferente estar aqui. Sempre que posso fujo,
fujo no olhar que cegou o meu. Porque eu fujo e vou com tudo
aquilo que me chama e toca. Vou com o azul dos olhos do
marçano ali da esquina, vou com as folhas das árvores no outono da
minha rua, vou com a noite à procura da manhã sobre o rio. Vou
pelos arranha-céus acima e contemplo dos altos terraços o sono
esbranquiçado dos mortos. Vou com o teu corpo que me desgasta a
memória doutros corpos e me transforma em esquecimento... vou,
vou sempre, pela humidade dos cardos presos em tua boca.

Abro depois as mãos, e não há mar nas suas linhas, nem
barcos que venham descansar na ponta dos dedos, e a linha do
coração - repara - é uma calosidade. E por uma noite da
imensa cegueira, quando já morar definitivamente em ti,
abandonar-te-ei... à hora dos répteis recolherem o calor nas fissuras do
tempo.

Intacto, irei à procura do merecido repouso.





Al Berto

sexta-feira, 2 de outubro de 2009

Editors




You must grab time by the hair,
couple subconscious helixes
in the space of a secret.

You must tickle the improbable
and believe in the impossibility
of crossroads.

You must learn to suspend
ten grams of white, five grams of black
in hopes of true scarlet.

You must know how to fall from below
to favor the zenith
of mornings to the manner born.

You must love the four mouths
floating around the silky doubt
of dead assumptions.



Bill Berkson

+++