quarta-feira, 31 de dezembro de 2008

The Album Leaf



Novo Ano, mas não nova vida. Quem pensa em ser mais crédulo, se tem medo de ser enganado? Se o mundo é de enganos, por que não deixar que nos façam pirraças e troças? Ninguem quer ser parvo, e é pior: porque para não ser enganado, desonra-se como pessoa de lisura e sinceridade. Há mais cobardes em ser iludidos, do que em ir para a guerra. Quando os simples são afinal os mais poderosos e quem cede, ganha.


Agustina Bessa Luís

segunda-feira, 29 de dezembro de 2008

não desenroles tanto a noite...

não desenroles tanto a noite

em tua pele. não equipares ao corpo

o tropel das palavras

na toalha. não encalhes em mim

tanta beleza. aperta

a blusa. recolhe do meu rosto

os teus olhares, alguma lágrima

brilhando sobre a mesa.

sossega. é cedo ainda

para o deserto trepidante

do desejo. não julgues saber já

que desenlaces

o meu corpo procura

sobre o teu. nem eu te ofereço

o armadilhado morango

do amor. apenas peço

que adormeças,

que dês lugar na cama

ao meu fantasma.

coloca o coração

numa órbita prudente. talvez não tarde

o tempo,

o lugar onde eu te diga

as palavras que desligam

os alarmes que instalei

em toda a alma.


Luís Miguel Queirós

domingo, 28 de dezembro de 2008

Da Weasel / Manel Cruz / Heiner Müller



As imagens significam tudo a princípio. São sólidas. Espaçosas.
Mas os sonhos coagulam, fazem-se forma e desencanto.
Já o céu não há imagem que o fixe. A nuvem vista do
Avião: um vapor que nos tira a vista, o grou, um pássaro, mais
nada
Até o comunismo, a imagem final, sempre refrescada
Porque lavada com sangue tantas vezes, o dia-a-dia
Paga-lhe um salário modesto, sem brilho, cego de suor,
Escombros os grandes poemas, como corpos muito tempo
amados e
Postos de lado agora, no caminho da espécie exigente e finita
Nas entrelinhas lamentos

sobre ossos feliz o carregador de pedra

Porque o belo significa o fim provável dos terrores.



Heiner Müller

sábado, 27 de dezembro de 2008

Black Box Recorder


I.

Na cidade não se falava de amor

mas eu amava

e resistia à cidade

porque falava de amor.

II.

Uns viviam em ruas com nome

de escultor,

outros viviam em ruas com nome

de pintor,

muito poucos viviam em ruas com nome

de gente.

III.

Na cidade tudo era circular:

terminava no mesmo ponto

em que começava.

Redondos, inúteis,

sobrevivíamos

como as montanha lá ao fundo.


Filipa Leal

quinta-feira, 25 de dezembro de 2008

Blonde Redhead



Fui sabendo de mim
por aquilo que perdia

pedaços que saíram de mim
com o mistério de serem poucos
e valerem só quando os perdia

fui ficando
por umbrais
aquém do passo
que nunca ousei

eu vi
a árvore morta
e soube que mentia


Mia Couto

quarta-feira, 24 de dezembro de 2008

A Weather



We lost a couple years, like a Christmas box,
crushed under the weight of standing still.
I'm serious, there's no way you could be forgot.
The birds remember how to come home.

You left her from the basement, I was fading out,
the earthquake like a giant passing truck.
If I lose everything, then I lose you
but I'll lose all the really bad things too.

I don't feel so alive tonight,
the lightest things feel very heavy.
And you want to find a hedgehog friend.
You're talking like a girl again.
Takes a lot to makle you feel tempted.

It takes a lot of quills,
and I will, I will.
Takes a lot to make you cry,
and I will, I will.
Like a ghost without a throat,
held still until
he won't feel so killed.

You get stuck, move if you can.
Bread in your hand, those hungry looks won't hardly stand.
I guess I feel a bit lost without you,
a middle thumb stuck in your belt.

Oh believe me,
I will have no more of thee
and I'll drive you far away from me.

I'm gonna fly right through the walls,
don't be scared at all.
I'm gonna float above your bed,
I will, I will.
I'm gonna kiss you on your head,
miss you won't know,
you'll just feel a little wind instead.

In your dream I'm noticing the way she sits,
but tonight I'm letting you drive.
If you wannt touch me just a little bit,
you better use your smallest left hand.

I'm shaking like a candle light,
blow me out alright, already.
I get gone on whisky and cocaine,
on cought syrup and codiene.
Watch me move like nothing you see,
brush your hand across where you felt me.
Do I pass the feather test?

Is there any hope for me?
Oh, believe me,
I will have no more of thee
and I'll drive you far away from me.

It takes a lot of faith,
to not to know
that the coaster if

It takes a lot of god's will.
I will, I will.
It takes a quills,
until you know.
Like a hedgehog, believe it will.

We lost a couple years, like a Christmas box,
we knew that sometimes you'd feel better somehow.
I will, I will.

terça-feira, 23 de dezembro de 2008

Tool / Amadeu Baptista




coisas há que a vida transfigura

como se de repente o tempo se abrisse

e o que era sagrado fosse mais sagrado

e mais belo o movimento sobre o movimento

e em cada cúpula a pomba anunciasse

o derradeiro sinal

tantas vezes sonhado e esperado.

sobre a surpresa outra surpresa paira

e a sucessão dos dias e das noites

é à memória que sempre deve tudo

quando na cintilação outra luz se abre

e sobre a praia uma criança corre

com o passado nos olhos onde o futuro vibra

e a fulguração de um rosto alastra para sempre

sobre a linha clara da rebentação.

falando de tristeza há um vínculo que se cumpre

porque tudo se cumpre quando se acredita

e há-de ser o amor o bem que se procura

nesse laço que a memória pressente no presente

e vem iluminar o fio indivisível

do mistério que arde em toda a parte.

o poema o revele e o nome que o assine

e a total alegria com que se entregue o poeta,

nem sequer inocente, nem sequer indeciso,

porque o céu testemunha o que já está escrito

e a estrela que brilha é a estrela da tarde

e brilha mais o brilho em que se acredita.'



Amadeu Baptista

segunda-feira, 22 de dezembro de 2008

Stacey Kent / Paul Auster



Azul. E nesse azul uma sensação
de verde, as cinzentas calotas de nuvens
amparadas contra o ar, como se
na ideia da chuva
o olhar
pudesse domar a fala
de um dado momento


na terra. Chamem-lhe o céu. E assim
descrever
o que quer
que vemos, como se nada mais fosse
que a ideia
de algo que tínhamos perdido
cá dentro. Podemos começar, pois,
a recordar


a terra dura, as estrelas
dardejantes de sílex, os undíferos
carvalhos, soltos
pelo resfolegar do vento, e assim até
à mais ínfima semente, descobrindo
o que sobre nós cresce, como se
por causa deste azul pudesse haver
este verde


que alastra, nisto inumerável
e milagroso, o mais silente
momento do verão. Sementes
falam deste ciclo, definem
o lugar onde o ar e a terra irrompem
nesta profusão de acaso, as aleatórias
forças da nossa falta de conhecimento
acerca daquilo
que vemos, e meramente falar disso
é ver
como as palavras nos falham, como nada sai bem
no dizer disso, nem sequer estas palavras
que sou levado a dizer
em nome deste azul
e deste verde
que se dissipam
no ar do verão.


Impossível
Continuar a ouvi-lo por mais tempo. A língua
para sempre nos aparta
de onde estamos, e em parte alguma
podemos repousar
nas coisas que nos são dadas
a ver, pois cada palavra
é outra parte qualquer, algo que se move
mais depressa que o olhar, mesmo
enquanto se desloca este pardal,
voluteando rumo ao ar
onde não tem lar algum. Não acredito, então,
em nada


do que te possam dar estas palavras,
e contudo ainda posso senti-las
a falar através de mim, como seja
isto somente
o que desejo, este azul
e este verde, e dizer
como este azul
se tornou para mim na essência
deste verde, e mais do que a pura
visão disso, quero que sintas
esta palavra
que o dia inteiro viveu
dentro de mim, este
desejo de nada


que não o dia em si mesmo, e o modo como cresce
dentro dos meus olhos, mais forte
do que a palavra de que é feito,
como se jamais
outra palavra


me pudesse amparar
sem se quebrar.



Paul Auster

domingo, 21 de dezembro de 2008

A Toys Orchestra



Era Inverno e nós tínhamos sede.
Talvez por causa do medo, essa forma
de sermos fiéis a nós próprios.
Cambaleámos até ao fundo de Lisboa,
que nesse dia se estipulou ser uma casa
outrora propriedade de um judeu.
Pássaros esvoaçavam numa sala sem gente,
a janela ao fundo, em contraluz.
Escondemo-nos atrás de uma cortina,
espreitando pelo canto da janela
a memória do nosso passado comum.
Depois, estupidamente, discutimos
poesia. Éramos cinco. Decidimos
separar-nos em grupos de quatro.
Por qualquer razão fiquei sozinho.



Vítor Nogueira

sexta-feira, 19 de dezembro de 2008

Nina Kinert



Às vezes assusta-me este novo riso que tenho. Não que antes não risse, mas exactamente porque antes ria e este riso não ri. Apenas revérbero negro do que seria um sorriso se alguma alegria o tomasse. Só que não há alegria e o riso perpetua-se negro sob o céu pesado do olhar de outros que se perguntam e com razão: estará a ficar louco? Por mim nunca me coloquei a questão (é o olhar deles que me assusta). Nos dias a questão foi sempre outra: como sobreviver a esta dor sem pausa? Como atravessar este grito sem fim? É para ela que o riso é solução.


Jorge Roque

quarta-feira, 17 de dezembro de 2008

Stendhal

Desde que se ame, o mais sensato dos homens não vê nenhum objecto tal como é. Exagera para menos as suas próprias vantagens e para mais os menores favores do objecto amado. Os temores e as esperanças transformam-se imediatamente em algo de romanesco. Deixa de atribuir seja o que for ao acaso; perde o sentido das probabilidades; uma coisa imaginada é uma coisa existente que influi na sua felicidade.
Um signo aterrador de que se está a perder a cabeça é que, ao pensar em qualquer facto, por minúsculo e difícil de observar que seja, o vejamos branco e o interpretemos em favor do nosso amor; um instante depois, verificamos que na realidade era negro, e mesmo assim ainda o achamos favorável ao nosso amor.
É nessa altura que uma alma presa de mortais incertezas sente vivamente a necessidade de um amigo; mas para um amante já não há amigos, como muito bem se sabia nas cortes. Eis a fonte da única espécie de indiscrição que uma mulher é capaz de perdoar.

Stendhal

terça-feira, 16 de dezembro de 2008

The Notwist



Idiot job 203
Newspapers shoot their letters at me
I'm alone at last with every other me
Guardian help me, angel shoot
All you ghosts stand by and salute
And explain:

Why is everything so locked up?

Lake is empty, lake is full
People say it's a push and pull
I know I did the wrong mistake again.
Guardian help me, angel shoot
All you ghosts stand by and salute
And explain:

Why is everything so locked up?

I don't blame it on the front row
don't blame it on them ruin glass
don't blame it on the signal
don't blame it on the steering wheel
don't blame it on the logbooks

'Cause I know they stray
Like all the cars in NY
Like all the lights on New Year
Like all these gloomy planets
You know they stay


Anyway.

segunda-feira, 15 de dezembro de 2008

Maria Callas / Ricardo Reis



Cada um cumpre o destino que lhe cumpre,
E deseja o destino que deseja;
Nem cumpre o que deseja,
Nem deseja o que cumpre.
Como as pedras na orla dos canteiros
O Fado nos dispõe, e ali ficamos;
Que a Sorte nos fez postos
Onde houvemos de sê-lo.
Não tenhamos melhor conhecimento
Do que nos coube que de que nos coube.
Cumpramos o que somos.
Nada mais nos é dado.

Ricardo Reis

domingo, 14 de dezembro de 2008

Osvaldo Gonzalez




sábado, 13 de dezembro de 2008

Winterpills



Que faria eu sem este mundo sem rosto sem questões
Quando o ser só dura um instante onde cada instante
Se deita na vida dentro do esquecimento de ter sido
Sem esta onda onde por fim
Corpo e sombra juntos se dissipam
Que faria eu sem este silêncio abismo de murmúrios
Arquejando furiosos em direcção ao socorro em direcção ao amor
Sem este céu que se eleva
Sobre o pó dos seus lastros
Que faria eu eu faria como ontem como hoje
Olhando para a minha janela vendo se não serei o único
A errar e a mudar distante de toda a vida
preso num espaço marionete
Sem voz entre as vozes
Que se fecham comigo.



Samuel Beckett

sexta-feira, 12 de dezembro de 2008

Death Cab for Cutie



O facto é que me interessa muito mais um padeiro que um economista.

Se ao menos a gente pudesse viver com as coisas mais simples em vez de recordar as complicadas. Voltar à pobreza do elementar: luz, água, pedra. O avô de alguém que me é querido dizia de uma pessoa boa É bom como o pão e ao lado disto que maior elogio se pode fazer? A nossa língua torna-se maravilhosa com palavras como estas É bom como o pão e lembro-me das mulheres que beijavam o pão duro antes de o deitar fora, da minha avó que se horrorizava ao ver um pão ao contrário: punha-o logo direito a pedir desculpa em silêncio, movendo a boca. Sempre me senti bem nas padarias: o cheiro, o lume, os padeiros enfarinhados que eu achava, acho ainda, serem anjos que se transviaram, de braços cobertos por uma poeira celeste. Tudo neles era branco até as sobrancelhas, as pestanas. O olhar branco também. Os gestos. Não olhos cegos, olhos brancos. E eu à porta a espantar-me. O eco das vozes nos tijolos, dos passos, da lenha no forno. Bom como o pão: ora toma, António. Aprende a escrever à maneira. O facto é que me interessa muito mais um padeiro que um economista. Ou um gestor.

Criaturas que, não sei porquê, me dão pena: economistas, gestores, administradores, directores, banqueiros. Deve ser triste ganhar dinheiro assim. O que sonhará um economista, a que brincava um gestor em criança? Ou nasceram já crescidos? Imagino-os debaixo do chuveiro, de gravata, a falar ao telemóvel. E sabe-se que são velhos não pelo aspecto mas porque quando contam que arranjaram uma secretária boa se referem a um móvel. O que sonhará um economista posso imaginar mais ou menos, agora o que sonha a mulher de um economista é que me preocupa. Se eu fosse mulher de um economista sonhava com canalizadores ou mecânicos de automóvel, homens que usam as mãos e não lêem revistas de golfe nos domingos de chuva. Estou a brincar. Não conheço nenhum economista, aliás. Se conhecesse abria-lhe logo a tampa a fim de espiar o que traz na barriga: cartões de crédito, canetas caras, camisas por medida? Sempre andei mal enjorcado, eu, para desespero da minha mãe:

Andas tão mal enjorcado, filho.

Todos os anos a minha companhia lá da guerra faz um almoço com os que sobejam da miséria em que andámos. Não neste último almoço, no penúltimo, o furriel Firmino Alves começou a anotar os telemóveis dos nossos camaradas para os contactos da refeição seguinte, até que chegou ao Pontinha. Pontinha é a alcunha do ordenança da messe de oficiais, que morava na Pontinha. Como a cabeça dele era grande (continua a ser grande) chamavam-lhe também Porta-aviões porque dava para os aviões aterrarem.

O Pontinha, como muitos dos soldados, vive com dificuldades. Ao fim-de-semana engraxa sapatos na mira de equilibrar o orçamento. Gosto muito do Pontinha a quem obrigava a cortar a carne em bocados de dois por três centímetros, por haver decidido ser a capacidade da minha boca. Media aquilo e exigia Quatro milímetros a mais, Pontinha, corta outra vez e o Pontinha, que remédio, cortava. Ainda hoje, nesses almoços, me quer cortar a carne. Falar nos meus camaradas comove-me: a expressão irmãos de armas é tão verdade. Enquanto nos aguentarmos por cá. Mesmo depois. Zé Jorge: continuamos irmãos de armas. Cabo Sota: admiro a tua coragem até ao fundo da alma. Sozinho com a Breda, uma metralhadorazeca, aguentou um ataque.

E vive mal, percebem? Como se deixa viver mal um herói? Ao acompanhá-lo ao táxi em que voltava, doente, ao Alentejo, avisei o condutor:

Você leva aí um grande homem, sabia, um dos maiores homens que conheço e, como todos os grandes homens da guerra, de uma infinita modéstia, bondoso e sereno. Não lhe chego aos calcanhares. Cabo Sota, tu mereces a continência de um general. O Zé Luís, oficial de operações especiais, que em matéria de coragem não necessitava de aprender com ninguém:

Eram duros

expressão que constitui para nós o supremo elogio. Adiante. Contava eu que o furriel Firmino Alves anotava os telemóveis até que chegou ao Pontinha e como fizera com os outros perguntou:

Tens um telemóvel, Pontinha?

e o Pontinha logo, a mostrar serviço:

Não, mas a minha mulher tem um microondas não fosse a gente pensar que ele era um badameco qualquer. Pode parecer esquisito ou parvo ou o que quiserem, mas quem cortava a minha carne era um magnata cuja mulher tem um microondas, e aí está o melhor título de nobreza (aliás o único) que possuo. Este ano o Pontinha, depois de me desdobrar o guardanapo (se eu o desdobrasse ele ofendia-se) olhou-me bem nos olhos e declarou:

Se quiser vou para sua casa, faço-lhe o comer, dou-lho e não levo um tostão por isso e eu todo arrepiadinho de ternura. Boaventura, Nini, Licínio, vocês todos caramba como a gente somos irmãos. Unamuno, que muito respeito, tem páginas admiráveis acerca da valentia dos portugueses. Tens razão, Zé Luís: eram duros. Ganas de explicar às mulheres deles, aos filhos deles, o orgulho que tenho em ser amigo dos pais, em que os pais sejam meus amigos. Não: irmãos de armas. Não: irmãos. E bons como o pão. Ao lado disto que maior elogio se pode fazer? Ao menos que o País os beije antes de os deitar fora e lhes peça desculpa. E há mais anjos para além dos padeiros, de arma nas unhas mata fora. Nenhum deles é banqueiro, claro. Nem administrador. Nenhum deles joga golfe. Jogaram golfe num campo de um só buraco onde não é a bola que cai.

É um rapaz de vinte anos. E acabo aqui, antes que seja tarde para marcar o número de um microondas.


António Lobo Antunes

quinta-feira, 11 de dezembro de 2008

Willard Grant Conspiracy



When I am dead and over me bright April
Shakes out her rain-drenched hair,
Though you should lean above me broken-hearted,
I shall not care.

I shall have peace, as leafy trees are peaceful
When rain bends down the bough,
And I shall be more silent and cold-hearted
Than you are now.


Sara Teasdale

quarta-feira, 10 de dezembro de 2008

Rui Reininho / Simone Weil



A função própria da inteligência exige uma liberdade total, implicando o direito a tudo negar e nenhuma dominação. Sempre que ela usurpa um comando, há excesso de individualismo. Sempre que se encontra tolhida, há uma colectividade opressiva, ou várias.
A Igreja e o Estado devem puni-la, cada um à sua maneira, quando ela aconselha actos que eles desaprovam. Quando ela permanece no campo da especulação puramente teórica, eles têm ainda o dever, se for caso disso, de pôr o público de sobreaviso, por todos os meios eficazes, contra o perigo de uma influência prática de certas especulações na condução das vidas. Mas, sejam quais forem essas especulações teóricas, Igreja e Estado não têm o direito nem de procurar abafá-las nem de inflingir aos seus autores quaisquer danos materiais ou morais.

Em especial, não se deve privá-los dos sacramentos se estes os desejarem. Porque, seja o que for que tenham dito, mesmo que tenham negado publicamente a existência de Deus, é possível que não tenham cometido qualquer pecado. Em tal caso, a Igreja deve declarar que se encontram em erro, mas não exigir deles seja o que for que se assemelhe a um desmentido do que afirmaram, nem privá-los do pão da vida.
Uma colectividade é guardiã do dogma; e o dogma é um objecto de contemplação para o amor, a fé e a inteligência, três faculdades estritamente individuais. Daí um mal estar do indivíduo no cristianismo, quase desde a origem, e especialmente um mal estar da inteligência. Não podemos negá-lo.

Simone Weil

terça-feira, 9 de dezembro de 2008

El Perro del Mar



Um estranho paradoxo: as pessoas, quando agem, têm em mente o interesse privado mais mesquinho, mas ao mesmo tempo, no seu comportamento, são mais do que nunca determinadas pelo instinto das massas. E mais do que nunca, o instinto das massas tornou-se errado. O obscuro instinto do animal - como inúmeros episódios o comprovam - encontra a saída para o perigo iminente mas ainda invisível. Em contrapartida, esta sociedade, onde cada um tem apenas em vista o seu próprio interesse mesquinho, sucumbe como uma massa cega, com estupidez animal mas sem a estúpida sabedoria dos animais, a todo o perigo, ainda que muito próximo, e a diversidade dos objectivos torna-se insignificante, ante a identidade das forças determinantes.

Muitas vezes se tem demonstrado que é tão rígida a sua fixação à vida habitual, mas de há muito perdida, que acaba por não se verificar a aplicação efectivamente humana do intelecto, a previdência, até mesmo ante o perigo iminente. Assim a imagem da estupidez completa-se nela: insegurança, ou mesmo perversão dos instintos vitais, e desfalecimento ou até decadência do intelecto.

Walter Benjamin

segunda-feira, 8 de dezembro de 2008

Parliament Funkadelic



He had his dream, and all through life,
Worked up to it through toil and strife.
Afloat fore'er before his eyes,
It colored for him all his skies:
The storm-cloud dark
Above his bark,
The calm and listless vault of blue
Took on its hopeful hue,
It tinctured every passing beam --
He had his dream.

He labored hard and failed at last,
His sails too weak to bear the blast,
The raging tempests tore away
And sent his beating bark astray.
But what cared he
For wind or sea!
He said, "The tempest will be short,
My bark will come to port."
He saw through every cloud a gleam --
He had his dream.


Paul Laurence Dunbar

domingo, 7 de dezembro de 2008

Fagundes, o puxa-saco





sábado, 6 de dezembro de 2008

paranoid android




Please could you stop the noise, I'm trying to get some rest
From all the unborn chicken voices in my head
What's this? (I may be paranoid, but not an android)
What's this? (I may be paranoid, but not an android)

When I am king, you will be first against the wall
with your opinion which is of no consequence at all
What's this? (I may be paranoid, but no android)
What's this? (I may be paranoid, but no android)

Ambition makes you look pretty ugly
Kicking, squealing, gucci little piggy
You don't remember
You don't remember
Why don't you remember my name?
Off with his head, man
Off with his head, man
Why don't you remember my name? I guess he does...

Rain down, rain down
Come on rain down
on me
From a great height
From a great height... height...
Rain down, rain down
Come on rain down on me
From a great height
From a great height... height...
Rain down, rain down
Come on rain down on me

That's it sir
You're leaving
The crackle of pigskin
The dust and the screaming
The yuppies networking
The panic, the vomit
The panic, the vomit
God loves his children, God loves his children, yeah!

sexta-feira, 5 de dezembro de 2008

Giving Up



What if we stop having a ball?
What if the paint chips from the wall?
What if there's always cups in the sink?
What if I'm not what you think I am?

What if I fall further than you?
What if you dream of somebody new?
What if I never let you win, chase you with a rolling pin?
Well what if I do?

cause...
I am giving up on making passes and
I am giving up on half empty glasses and
I am giving up on greener grasses.
I am giving up.

What if our baby comes home after nine?
What it your eyes close before mine?
What if you lose yourself sometimes? Then I'll be the one to find you
Safe in my heart.

cause...

quinta-feira, 4 de dezembro de 2008

You Picked Me



Nem paz nem felicidade se recebem dos outros nem aos outros se dão. Está-se aqui tão sozinho como no nascer e no morrer; como de um modo geral no viver, em que a única companhia possível é a daquele Deus a um tempo imanente e transcendente e a dos que neles estão, a de seus santos. Felicidade ou paz nós as construímos ou destruímos: aqui o nosso livre-arbítrio supera a fatalidade do mundo físico e do mundo do proceder e toda a experiência que vamos fazendo, negativa mesmo para todos, a podemos transformar em positiva. Para o fazermos, se exige pouco, mas um pouco que é na realidade extremamente difícil e que não atingiremos nunca por nossas próprias forças: exige-se de nós, primacialmente, a humildade; a gratidão pelo que vem, como a de um ginasta pelo seu aparelho de exercício; a firmeza e a serenidade do capitão de navio em sua ponte, sabendo que o ata ao leme não a vontade de um rei, como nos Descobrimentos, mas a vontade de um rei de reis, revelada num servidor de servidores; finalmente, o entregar-se como uma criança a quem sabe o caminho. De qualquer forma, no fundo de tudo, o que há é um acto de decisão individual, um acto de escolha; posso ser, se tal me agradar, infeliz e inquieto.

Agostinho da Silva

quarta-feira, 3 de dezembro de 2008

My Mistakes Were Made For You



Era o último amor. A casa fria,
os pés molhados no escuro chão.
Era o último amor e não sabia
esconder o rosto em tanta solidão.

Era o último amor. Quem advinha
o sabor pela escuridão?
Quem oferece frutos nessa neve?
Quem rasga com ternura o que foi verão?

Era o último amor, o mais perfeito
fulgor do que viveu sem as palavras.
Era o último amor, perfil desfeito
entre lumes e vozes passadas.

Era o último amor e não sabia
que os pés à terra nua oferecia.


Luís Filipe Castro Mendes

terça-feira, 2 de dezembro de 2008

A memória é...

A memória é essa claridade fictícia das sobreposições que se anulam. O significado é essa espécie de mapa das interpretações que se cruzam como cicatrizes de sucessivas pancadas. Os nossos sentimentos. A intensidade do sentir é intolerável. Do sentir ao sentido do sentido ao significado: o que resta é impacto que substitui impacto — eis a invenção.

Ana Hatherly, in 'Tisanas'

domingo, 30 de novembro de 2008

3 Legged Animals



hands fit together like medicine
butterfly itch on a bottle rocket tail everything is bleeding
shake the glass out of your hair
spell your name in broken teeth

3 legged animals
shut their sweet eyes lick your scars and grow wings
sleep for me sleepless
dream for me dreamless

hands bleed together fine
sweat off your makeup
peel and wait in washed out gold
ease back warm electric chair
leave your memories we're almost new
sleep for me sleepless
dream for me dreamless
sleep for me sleepless
dream for me dreamless

Gus Fink




sábado, 29 de novembro de 2008

Dead Combo / Pedro Tamen



O mar é longe,mas somos nós o vento;
e a lembrança que tira,até ser ele,
é doutro e mesmo,é ar da tua boca
onde o silêncio pasce e a noite aceita.
Donde estás,que névoa me perturba
mais que não ver os olhos da manhã
com que tu mesma a vês e te convém?
Cabelos,dedos ,sal e a longa pele,
onde se escondem a tua vida os dá;
e é com mãos solenes,fugitivas,
que te recolho viva e me concedo
a hora em que as ondas se confundem
e nada é necessário ao pé do mar.


Pedro Tamen

sexta-feira, 28 de novembro de 2008

Jailbird



Se alguma vez, nos salões de um palacio, sobre a erva de uma vala ou na solidão morna do vosso quarto, acordardes de uma embriaguez evanescente ou desaparecida, perguntai ao vento, a vaga, ao passaro, ao relogio, a tudo o que foge, a tudo o que geme, a tudo o que rola, a tudo o que canta, a tudo o que fala, perguntai-lhes que horas são; e o vento a vaga, a estrela, o passaro, o relogio, vos responderão: São horas de vos embriagardes! Para não serdes escravos martirizados do tempo, embriagai-vos; embriagai-vos sem cessar! Mas de quê? De vinho, de poesia ou de virtude, à vossa escolha. Mas embriagai-vos! Deslumbrai-vos!


Baudelaire

quinta-feira, 27 de novembro de 2008

Joana Amendoeira / Al Berto



tenho, no silêncio, a certeza de que os homens bons sobrevivem às intempéries da mente dos homens e das mulheres e dos corpos deles em conjuntos dionisíacos. porque são bons os homens que por aí vivem e por aí morrem... e por aí se retiveram tempo suficiente para se esquecerem e serem esquecidos.


Al Berto

quarta-feira, 26 de novembro de 2008

Buena Vista Social Club



Nós que, pelo império das circunstâncias, dirigimos
a revolução, não somos donos da verdade, menos ainda
de toda a sapiência do mundo. Temos que aprender todos
os dias. No dia em que deixarmos de aprender, que acreditarmos
saber tudo ou se tivermos perdido a capacidade de contato
ou de intercâmbio com o povo e com a juventude, será o dia em que
teremos deixado de ser revolucionários e, então, o melhor que
vocês poderiam fazer seria deitar-nos fora...


Che Guevara

terça-feira, 25 de novembro de 2008

blu







Letter A from blu on Vimeo.

segunda-feira, 24 de novembro de 2008

Carta de Amor

Para te dizer tão-só que te queria
Como se o tempo fosse um sentimento
bastava o teu sorriso de um outro dia
nesse instante em que fomos um momento.
Dizer amor como se fosse proibido
entre os meus braços enlaçar-te mais
como um livro devorado e nunca lido.
Será pecado, amor, amar-te demais?
Esperar como se fosse (des) esperar-te,
essa certeza de te ter antes de ter.
Ensaiar sozinho a nossa arte
de fazer amor antes de ser.
Adivinhar nos olhos que não vejo
a sede dessa boca que não canta
e deitar-me ao teu lado como o Tejo
aos pés dessa Lisboa que ele encanta.
Sentir falta de ti por tu não estares
talvez por não saber se tu existes
(percorrendo em silêncio esses altares
em sacrifícios pagãos de olhos tristes).
Ausência, sim. Amor visto por dentro,
certezas ao contrário, por estar só.
Pesadelo no meu sonho noite adentro
quando, ao meu lado, dorme o que não sou.
E, afinal, depois o que ficou
das noites perdidas à procura
de um resto de virtude que passou
por nós em co(r)pos de loucura?
Apenas mais um corpo que marcou
a esperança disfarçada de aventura…
(Da estupidez dos dias já estou farto,
das noites repetidas já cansado.
Mas, afinal, meu Deus, quando é que parto
para começar, enfim, este meu fado?)
No fim deste caminho de pecados
feito de desencontros e de encantos,
de palavras e de corpos já usados
onde ficamos sós, sempre, entre tantos…
Que fique como um dedo a nossa marca
e do que foi um beijo o nosso cheiro:
Tesouro que não somos. Fique a arca
que guarde o que vivemos por inteiro.


Fernando Tavares Rodrigues

What's a girl to do



We walked arm in arm
But I didn't feel his touch
A desire I'd first tried to hide,
That tingling inside was gone
And when he asked me:
'do you still love me?'
I had to look away
I didn't want to tell him
That my heart grows colder with each day

When you love so long
That the thrill is gone
And your kisses at night
Are replaced with tears
And when your dreams are on
A train to train wreck town
Then I ask you now, what's a girl to do?

He said he'd take me away
That we'd work things out
And I didn't want to tell him
But it was then I had to say
Over the times we've shared
It's all blackened out
And my bat lightning heart
Wants to fly away

When you love so long
That the thrill is gone
And your kisses at night
Are replaced with tears
And when your dreams are on
A train to train wreck town
Then I ask you now, what's a girl to do?

What's a girl to do?

sábado, 22 de novembro de 2008

Lay Down



Amo-te muito, meu amor, e tanto
que, ao ter-te, amo-te mais, e mais ainda
depois de ter-te, meu amor. Não finda
com o próprio amor o amor do teu encanto.

Que encanto é o teu? Se continua enquanto
sofro a traição dos que, viscosos, prendem,
por uma paz da guerra a que se vendem,
a pura liberdade do meu canto,

um cântico da terra e do seu povo,
nesta invenção da humanidade inteira
que a cada instante há que inventar de novo,

tão quase é coisa ou sucessão que passa...
Que encanto é o teu? Deitado à tua beira,
sei que se rasga, eterno, o véu da Graça.


Jorge de Sena

sexta-feira, 21 de novembro de 2008

Andrew Bird / Ernesto Sábato



O homem não pode manter-se humano a esta velocidade, se viver como um autómato será aniquilado. A serenidade, uma certa lentidão, é tão inseparável da vida do homem como a sucessão das estações é inseparável das plantas, ou do nascimento das crianças. Estamos no caminho mas não a caminhar, estamos num veículo sobre o qual nos movemos incessantemente, como uma grande jangada ou como essas cidades satélites que dizem que haverá. E ninguém anda a passo de homem, por acaso algum de nós caminha devagar? Mas a vertigem não está só no exterior, assimilá-mo-la na nossa mente que não pára de emitir imagens, como se também fizesse zapping; talvez a aceleração tenha chegado ao coração que já lateja num compasso de urgência para que tudo passe rapidamente e não permaneça. Este destino comum é a grande oportunidade, mas quem se atreve a saltar para fora? Já nem sequer sabemos rezar porque perdemos o silêncio e também o grito.

Na vertigem tudo é temível e desaparece o diálogo entre as pessoas. O que nós dizemos são mais números do que palavras, contém mais informação do que novidade. A perda do diálogo afoga o compromisso que nasce entre as pessoas e que pode fazer do próprio medo um dinamismo que o vença e que lhes outurgue uma maior liberdade. Mas o grave problema é que nesta civilização doente não há só exploração e miséria, mas também uma correlativa miséria espiritual. A grande maioria não quer a liberdade, teme-a. O medo é um sintoma do nosso tempo. A tal extremo que, se rasparmos um pouco a superfície, poderemos verificar o pânico que está subjacente nas pessoas que vivem sob a exigência do trabalho nas grandes cidades. A exigência é tal que se vive automaticamente sem que um sim ou um não tenha precedido os actos.

Ernesto Sábato

terça-feira, 18 de novembro de 2008

Como eu gosto de ti...

Ao amor que já não ama, lacera-se-lhe o coração em brasa, domam-se-lhe as rédeas no casquilho dos dentes. Um amor temeroso e efémero, porque um coração transita como os frutos de época. Um coice tardio na curva do peito, porque os seus tornozelos não suportam o fardo do corpo que ainda trilha as sendas do amor. O amor dito de palavra é açúcar nos ferrolhos da boca, amor adoçado nas gengivas como um beijo de campânula. Amor que sobra das palavras dorme ao relento de corpo purgado ao vento, escavacando as ervas-beldroegas com as suas garras de leão-persa. Aos olhos de um amor que ainda ama, a infinidade da noite é uma mentira eléctrica serpeando que nem enguia o choro das caldas de Cáspio. Aos meus olhos, o limbo da noite é estonteante e latente, dos olhos às mãos, e do peito à memória, uma âncora no céu-da-boca.

(...)

Como eu gosto de ti, ninguém o entenderia. Nem a cama esvaída que me obriga a desprender-me do corpo noutras roturas nocturnas e azedas. Nem a solidão taciturna que escorre devagar nos chuviscos flamejantes do amor. Como eu gosto de ti, nem o mundo o aceitaria. As árvores trépidas, os animais ferinos, a cadência dos lagos, mobília sisuda que ganha a morte sobre o couro crestado. Como eu gosto de ti, só a melodia do poente trova. E se a antemanhã sucumbe nas copas das sequóias - ricocheteando como uma bala célere - perfurando como um comboio alucinado - a incerteza dos teus sinais desmancha-se sobre os meus lençóis na loucura do leito. Como eu gosto de ti, só eu sei, de dentro para dentro, como um confim de baús entreabertos às galáxias chamejantes do céu da boca. Como eu gosto de ti, segredando-me da voz o rasto da tua presença, pernoitando-me de corpo fixo e amor esquivo, a temperança das tuas enchentes.

Alice Turvo, in Férreos Transversais

segunda-feira, 17 de novembro de 2008

Noiserv / Paul Éluard



A curva dos teus olhos dá a volta ao meu peito
É uma dança de roda e de doçura.
Berço nocturno e auréola do tempo,
Se já não sei tudo o que vivi
É que os teus olhos não me viram sempre.

Folhas do dia e musgos do orvalho,
Hastes de brisas, sorrisos de perfume,
Asas de luz cobrindo o mundo inteiro,
Barcos de céu e barcos do mar,
Caçadores dos sons e nascentes das cores.

Perfume esparso de um manancial de auroras
Abandonado sobre a palha dos astros,
Como o dia depende da inocência
O mundo inteiro depende dos teus olhos
E todo o meu sangue corre no teu olhar.

Paul Éluard

Zhang Xiaogang




sábado, 15 de novembro de 2008

Mishima



Numerosos comboios do caminho-de-ferro aéreo paravam mesmo ao pé de nós e partiam de novo, com grande ruído de metais. A multidão de pessoas que subia e descia das carruagens tornava-se cada vez mais densa. Cada vez que chegava um comboio, ficávamos cortados do raio de sol que nos banhava no seu agradável calor. E cada vez que um comboio se afastava, eu ficava de novo aterrorizado com a suavidade do sol que me batia no rosto.
Considerava um sinal de mau augúrio esta forma como o sol abençoado vinha ter comigo, a maneira como o meu coração fruía momentos que não deixavam nada a desejar. Dentro de alguns minutos, sem dúvida que um repentino raid aéreo ou outro acontecimento igualmente funesto viria pôr termo às nossas vidas. Ou talvez tivesse ganho o mau hábito de considerar a mínima felicidade como um grande favor pelo qual teríamos que pagar um preço. Era esse, precisamente, o meu sentimento ao encarar Sonoko. E também ela parecia esmagada pelo mesmo sentimento.
(...)


Yukio Mishima
- in Confissões de uma Máscara


Mishima morre a 25 de Novembro de 1970 na mesma cidade onde nasceu cometendo "seppuku", o suicídio ritual tradicional dos samurais.

sexta-feira, 14 de novembro de 2008

John Bonham



I remember in the early days when we played six nights a week for a month and I was doing my long drum solo every night. My hands were covered in blisters.

John Bonham

quinta-feira, 13 de novembro de 2008

Nneka / Gottfried Benn



Eleva-te da fila das que estão,
mulheres que a terra toda põem em flor,
adiantas-te, trazendo a sagração
das eleitas pró fogo em que arde o amor.

Do princípio dos povos, das idades,
presságio, cruzamento, morte – vem,
agora a forma és tu – serenidades,
esperança, sedução, trazes, mas quem

esperarás para o teu arrepio
e quem te bebe e reconhece assim
na tua eternidade em luta e cio –
esperarás o deus? – Espera por Mim!



Gottfried Benn

terça-feira, 11 de novembro de 2008

Weekend Wars



Quando o subconsciente é abandonado a si próprio por um momento, ele começa, muito simplesmente, a tecer uma trama. Cria uma identidade para si próprio, adapta-se ao meio e produz diligentemente novas formas de preencher o súbito vácuo que se cria quando esquecemos a realidade imediata. Parece não haver nada de que o subconsciente tenha tanto medo como a sensação de não ser ninguém. E, servidor prestável, começou a fabricar-me uma biografia!

Lars Gustafsson

segunda-feira, 10 de novembro de 2008

Common People




Quando eu morrer batam em latas,
Rompam aos saltos e aos pinotes,
Façam estalar no ar chicotes,
Chamem palhaços e acrobatas!

Que o meu caixão vá sobre um burro
Ajaezado à andaluza...
A um morto nada se recusa,
Eu quero por força ir de burro.


Mário de Sá-Carneiro

sábado, 8 de novembro de 2008

os vossos lugares - Viana do Castelo




Viana do Castelo - Portugal

sexta-feira, 7 de novembro de 2008

Love Is Noise



Tentai apreender a vossa consciência e sondai-a. Vereis que está vazia, só encontrareis nela o futuro. Nem sequer falo dos vossos projectos e expectativas: mas o próprio gesto que surpreendeis de passagem só tem sentido para vós se projectardes a sua realização final para fora dele, fora de vós, no ainda-não. Mesmo esta taça cujo fundo não se vê - que se poderia ver, que está no fim de um movimento que ainda não se fez -, esta folha branca cujo reverso está escondido (mas poderia virar-se a folha) e todos os objectos estáveis e sólidos que nos rodeiam ostentam as suas qualidades mais imediatas, mais densas, no futuro.
O homem não é de modo nenhum a soma do que tem, mas a totalidade do que não tem ainda, do que poderia ter. E, se nos banhamos assim no futuro, não ficará atenuada a brutalidade informe do presente? O acontecimento não nos assalta como um ladrão, visto que é, por natureza, um Tendo-sido-Futuro. E, para explicar o próprio passado, não será a primeira tarefa do historiador procurar o futuro?

Jean-Paul Sartre

quinta-feira, 6 de novembro de 2008

Sara Tavares / Jorge Barbosa





"Dorme Maninho
pra não vir Ti Lobo..."

Maninho
volta-se e dorme
no colchão de saco vazio
sobre a terra batida.

Ao lado no chão dormindo também
o naviozinho de lata
que fez com suas mãos...

Apaga-se a luz.
Maninho acorda depois
por causa da voz falando baixinho
segredando
no meio escuro...

Não fala de mamãe...
Ti Lobo talvez...
Mas nhô Chico Polícia há dias contava:
"Ti Lobo não tem..."

Essa voz nocturna segredando...
O homem branco talvez
que lá vai de vez enquando...

"Dorme Maninho
pra não vir Ti Lobo..."

Volta-se e torna a dormir...

Amanhã cedo vai correr o naviozinho de lata
nas poças da Praia Negra...



Jorge Barbosa

quarta-feira, 5 de novembro de 2008

Frida Kahlo



terça-feira, 4 de novembro de 2008

If you ever need me, just remember...



I wonder, if I ever let you down
Did you keep on moving
I wonder, when I took my feet from off your ground
Did you keep on going

If you ever need me, just remember
All the times when we wandered free
If you ever miss me, don't you know
That i feel the same way

I wonder, did I ever fail you
Did you give up dreaming
I wonder, when I had to go
Did you stop believing

Don't you know, every sould must grow older
Our past belongs to you
And it should make you stronger

If you ever need me, just remember
All the times when we wandered free
If you ever miss me, don't you know
That I feel the same way

Don't stop moving, you must keep on going
Don't you stop believing, you should go on dreaming
Don't stop moving, you must keep on going
Don't you stop believing,
'Cause it's people like you make the world go...

If you ever need me, just remember
All the times when we wandered free
If you ever miss me, don't you know
That I feel the same way

If you ever need me, just remember
And I'll always be there
If you ever miss me, don't you know
...don't you know
...we will meet again

Cultiva a Tua Diferença

Não és um homem normal. Isso te é uma inferioridade (ou uma superioridade?). Como em tudo o que é diferente. Cultiva a tua diferença. Mas uma diferença pode ser negativa. Esse o teu drama. Porque a tua diferença vai além e fica aquém dos outros. Tu querias ser os outros no em que lhes és inferior e ser diferente no em que lhes és superior. Mas toda a superioridade se paga. Paga e não bufes.

Vergílio Ferreira

sábado, 1 de novembro de 2008

Same Love That Made Me Laugh



o mar não conhece as profundidades
nenhum azul nem conhece as suas ondas
o mar não é soberbo nem
manso nem amargo
não conhece o sabor do vento nem da espuma
o mar não vê nenhum sol
nem terra nem seixos
O mar não ama o céu
nem a lua
o mar não se conhece



Eva Christina Zeller

sexta-feira, 31 de outubro de 2008

Quase Perfeito



Se um beijo é quase perfeito
Perdidos num rio sem leito
Que dirá se o tempo nos der
O tempo a que temos direito

Se um dia um anjo fizer
A seta bater-te no peito
Se um dia o diabo quiser
Faremos o crime perfeito

quinta-feira, 30 de outubro de 2008

ney matogrosso / António Lobo Antunes



Se eu não te amar mais me
Caia o mar nos ombros
Me caia
Este silêncio pelos ossos dentro
Me cegue os olhos esta sombra
Me cerre
Esta noite num escuro mais profundo
Do que a chuva de ti de mãos tão leves
A figueira do meu sangue se emudeça
De pássaros à espera dos teus passos
De outra voz por sobre a minha
Morta
E as ruas do teu corpo eu desaprenda
Como desaprendi os dedos que me tocam
E se eu não te amar mais me caia a casa
De costa no teu peito como o vento



António Lobo Antunes

quarta-feira, 29 de outubro de 2008

A Little At A Time



I start looking back for the things I used to live by
If only I could remember them
Even one of them
You can't lose it all at once, can you really
Cause brother I've been trying
These days even stars fall only a little at a time
Maybe if I send back the blues her broken heart
She will send back mine
Maybe if I send back the blues her broken heart
She will send back mine
A little at a time
...

terça-feira, 28 de outubro de 2008

Estava eu sentado, perto do mar...

Estava eu sentado, perto do mar, a ouvir com pouca atenção um amigo meu que falava arrebatadamente de um assunto qualquer, que me era apenas fastidioso. Sem ter consciência disso, pus-me a olhar para uma pequena quantidade de areia que entretanto apanhara com a mão; de súbito vi a beleza requintada de cada um daqueles pequenos grãos; apercebia-me de que cada pequena partícula, em vez de ser desinteressante, era feito de acordo com um padrão geométrico perfeito, com ângulos bem definidos, cada um deles dardejando uma luz intensa; cada um daqueles pequenos cristais tinha o brilho de um arco-íris... Os raios atravessavam-se uns aos outros, constituindo pequenos padrões, duma beleza tal que me deixava sem respiração... Foi então que, subitamente, a minha consciência como que se iluminou por dentro e percebi, duma forma viva, que todo o universo é feito de partículas de material, partículas que por mais desinteressantes ou desprovidas de vida que possam parecer, nunca deixam de estar carregadas daquela beleza intensa e vital. Durante um segundo ou dois, o mundo pareceu-me uma chama de glória. E uma vez extinta essa chama, ficou-me qualquer coisa que junca mais esqueci que me faz pensar constantemente na beleza que encerra cada um dos mais ínfimos fragmentos de matéria à nossa volta.


Aldous Huxley

segunda-feira, 27 de outubro de 2008

Far away



Far away, once so close
But now you're far away
You're still here with me
But not like yesterday, so far
Far away, I hear you breathe
But you're so far away
Once so colourful
But now all turns to grey, so far
It's oh so strange
When centimetres feels like miles
Seconds like hours
Now it's true love has died
No more roads left to try, far away
Far away, long ago
When love was here to stay
Now it's gone
It doesn't matter what we say, so far
Every word is like a knife
But the silence cuts you twice

domingo, 26 de outubro de 2008

Leixões Sport Club (o Meu)






A CIDADE DE MATOSINHOS
TÃO CHEIA DE PERGAMINHOS
TEM ORGULHO E TEM VALOR
NO SEU GRUPO TÃO VAREIRO
NA CIDADE ÉS O PRIMEIRO
E PARA NÓS SEMPRE O MELHOR

LEIXÕES, LEIXÕES, LEIXÕES

sábado, 25 de outubro de 2008

Oasis / Ovídio



Nem todas as mulheres experimentam os mesmos sentimentos. Encontrareis mil almas com mil maneiras diferentes. Para as conquistar, empregai mil maneiras. A mesma terra não produz todas as coisas: tal convém à vinha, tal à oliveira; aqui despontarão cereais em abundância. Há nos corações tantos caracteres diferentes, quantos rostos há no mundo. O homem prudente acomodar-se-á a estes inumeráveis caracteres; novo Proteu, tão depressa se diluirá em ondas fluidas para logo ser um leão, uma árvore, um javali de eriçadas cerdas. Os peixes apanham-se aqui com o arpão, ali com o anzol, acolá com as redes puxadas pela corda estendida. E o mesmo método não convirá a todas as idades: uma corça velha descobrirá a armadilha de mais longe; se te mostrares experiente junto de uma noviça, demasiado petulante junto de uma recatada, ela desconfiará que a vais tornar infeliz. Assim é que a mulher que às vezes teme entregar-se a um homem honesto, caiu vergonhosamente nos braços de alguém que a não merece.

Ovídio

sexta-feira, 24 de outubro de 2008

Deixas Em Mim Tanto de Ti



Leva o medo,
abraça os gestos imperfeitos
de noites não dormidas,
de quimeras tão azuis
como azul é o olhar
que não toco à instantes.

Resgata fantasmas,
aqueles sim,
esses que povoam
o espaço entre nós
e impedem o sôfrego desejo
de impulsos controlados
na perfeição do segredo.

Leva o medo
e deixa-me a luz
para nela me banhar
em noite de lua cheia
cheirando a maresia.

Depois…
depois segura entre mãos,
suavemente,
o doce amor
que te deixei…

… solene.


Rosa Maria Anselmo

quinta-feira, 23 de outubro de 2008

Alex Dukal



quarta-feira, 22 de outubro de 2008

Slow Show



Standing at the punch table swallowing punch
can’t pay attention to the sound of anyone
a little more stupid, a little more scared
every minute more unprepared

I made a mistake in my life today
everything I love gets lost in drawers
I want to start over, I want to be winning
way out of sync from the beginning

I wanna hurry home to you
put on a slow, dumb show for you
and crack you up
so you can put a blue ribbon on my brain
god I’m very, very frightening
I’ll overdo it

Looking for somewhere to stand and stay
I leaned on the wall and the wall leaned away
Can I get a minute of not being nervous
and not thinking of my dick
My leg is sparkles, my leg is pins
I better get my shit together, better gather my shit in
You could drive a car through my head in five minutes
from one side of it to the other

I wanna hurry home to you
put on a slow, dumb show for you
and crack you up
so you can put a blue ribbon on my brain
god I’m very, very frightening
I’ll overdo it

You know I dreamed about you
for twenty-nine years before I saw you
You know I dreamed about you
I missed you for
for twenty-nine years

You know I dreamed about you
for twenty-nine years before I saw you
You know I dreamed about you
I missed you for
for twenty-nine years

segunda-feira, 20 de outubro de 2008

Rescue Me



Erros meus a que chamarei virtude,
Por bem vos quero, e morro despedido
Sem amor, sem saúde, o chão perdido,
Erros meus a que chamarei virtude.

A terra cultivei, amargo e rude,
No sonho de melhor a ter servido;
Para ilusão de um palmo de comprido,
A terra cultivei, amargo e rude.

E o amor? A saúde? Eis os dois Lagos
Onde os olhos me ficam debruçados
— Azul e roxo, rasos de água os Lagos.

Mas direis, erros meus, ainda amores?
— São bonitos os dias acabados
Quando ao poente o Sol desfolha flores.

Afonso Duarte

+++