Não te fies do tempo nem da eternidade,
que as nuvens me puxam pelos vestidos,
que os ventos me arrastam contra o meu desejo!
Apressa-te, amor, que amanhã eu morro,
que amanhã morro e não te vejo!
Não demores tão longe, em lugar tão secreto,
nácar de silêncio que o mar comprime,
ó lábio, limite do instante absoluto!
Apressa-te, amor, que amanhã eu morro,
que amanhã morro e não te escuto!
Aparece-me agora, que ainda reconheço
a anémona aberta na tua face
e em redor dos muros o vento inimigo...
Apressa-te, amor, que amanhã eu morro,
que amanhã morro e não te digo...
Cecília Meireles
terça-feira, 16 de junho de 2009
Eva Cassidy
Publicada por Ricardo de Magalhães à(s) terça-feira, junho 16, 2009
segunda-feira, 15 de junho de 2009
Messer Chups
Saio da cama pela fenda do lençol e
fecho-a sobre ti. Toco o chão ao de
leve, como uma ave pousa na pele
das ondas. Visto-me às escuras - tão
mais discreta a blusa do avesso, a saia
tão distraída nas costuras. Vou
para a cozinha de sapatos na mão e
escrevo-te um bilhete: deixei-te um
beijo sobre a tua almofada antes
de sair. Não preciso assinar.
Maria do Rosário Pedreira
Publicada por Ricardo de Magalhães à(s) segunda-feira, junho 15, 2009
domingo, 14 de junho de 2009
Eagles of Death Metal
procurei dentro de ti o repercutido som do mar
a voz exacta das plantas e um naufrágio
o deslizar das aves, o amor obsessivo pelos espelhos
o rumor latejante dos sonhos, as cores dum astro explodindo
o cume nevado de cada montanha
difíceis rios, os dias
vivi talvez em Roma
no tempo em que ali chegavam os trigos da Sicília e os vinhos raros das
ilhas
a fama remota dos ladrões de Nuoro
todo o meu corpo estremeceu ao mudar de voz
cresci com o rapaz, embora nunca tivéssemos sido irmãos
e quando ficámos adultos para sempre
alguém lhe ofereceu o oficio de viajante
eu morri perto de Veneza
e quando atirava pedras aos pássaros sempre me ia lembrando de ti
Al Berto
Publicada por Ricardo de Magalhães à(s) domingo, junho 14, 2009
sábado, 13 de junho de 2009
Fleet Foxes
Se a minha deusa cedo se atavia,
de ouro crespo ensombrando os tornozelos
e em bela rede os seus louros cabelos
de cem modos ondula ou já desfia,
comparo-a à donzela que saía
da espuma, a pentear os seus, tão belos,
castanhos, ora longos, ora aos elos,
passando o mar na concha em que seguia.
De uma mulher humana inda não são
seu riso, a testa, o gesto, os passos não,
nem de seus olhos uma e outra centelha.
Não ficam neles bosque, rocha, ou mar,
Ninfa em cabelo assim a esvoaçar,
nem tal olhar, nem boca tão vermelha.
Pierre de Ronsard
Publicada por Ricardo de Magalhães à(s) sábado, junho 13, 2009
sexta-feira, 12 de junho de 2009
Crazy Cavan & The Rhythm Rockers
Foi a mágoa sem fim de te perder
Foi a dor como única razão
Foi tanto ainda querer-te sem querer
E a raiva no lugar do coração
Foi o passado morto na lembrança
E o presente ausente de sentido
De tanto desesperar fazer da esperança
Saudade do futuro não cumprido
Não sei de que me lembro quando esqueço
Agora que recuso o que perdi
Das cinzas do que fomos recomeço
E nunca estive tão perto de ti
Manuela de Freitas
Publicada por Ricardo de Magalhães à(s) sexta-feira, junho 12, 2009
quarta-feira, 10 de junho de 2009
!!! (Chk Chk Chk)
Por parques e praças,
Ruas e travessas,
Tu, meu olhar, caças
A vida. E tropeças.
Uma gargalhada
Vem dum par contente
Guarda-a bem guardada,
Mas caminha em frente.
Surgem-te sorrisos
dum e doutro lado.
Não faças juízos
Rápidos. Cuidado!
Uma face grave
Nada te revela?
Talvez a dor cave,
Só mais tarde, nela.
Num choro, num grito,
Pressentes a dor?
E quedas, aflito.
Segue, por favor!
Segue, bem aberto
Para cada canto!
Olha o desconcerto
Que parece tanto!
Corre, olhar, em roda!
O que te intimida?
A vida? Só toda
Pode amar-se, a vida.
Alberto De Serpa
Publicada por Ricardo de Magalhães à(s) quarta-feira, junho 10, 2009
terça-feira, 9 de junho de 2009
Peter, Bjorn & John
De noite há movimentos para nada procurar:
moeda sobre o tampo numa rotação local,
faces sem saída, cinzas nos cinzeiros.
Vêm habitantes para um esplendor funesto
e a alma fica líquida, dobrada nos sifões,
sob as galerias, por bares subterrâneos.
Há séculos nocturnos em que as moedas giram
assim entre conversas e qualidades mortas.
Nada se procura quando não existe encontro
- e as cidades brilham nas zonas terminais,
às luzes amarelas. É preciso haver um mito
para esmerilar os restos, as areias, os pós de ouro.
Carlos Poças Falcão
Publicada por Ricardo de Magalhães à(s) terça-feira, junho 09, 2009
