Era um pássaro alto como um mapa
e que devorava o azul
como nós devoramos o nosso amor.
Era a sombra de uma mão sozinha
num espaço impossivelmente vasto
perdido na sua própria extensão.
Era a chegada de uma muito longa viagem
diante de uma porta de sal
dentro de um pequeno diamante.
Era um arranha-céus
regressado do fundo do mar.
Era um mar em forma de serpente
dentro da sombra de um lírio.
Era a areia e o vento
como escravos
atados por dentro ao azul do luar.
Cruzeiro Seixas
terça-feira, 9 de junho de 2009
The Chemical Brothers
Publicada por Ricardo de Magalhães à(s) terça-feira, junho 09, 2009
sábado, 6 de junho de 2009
First Aid Kit
eu sou as personagens que tu representas
as falas que inventas
as histórias que gostarias de ter vivido
os sentimentos que sabes ter fingido
a cartilha das tuas opções
o chorrilho das tuas razões
as viagens que nunca fizeste
o grande amor que não tiveste
o talento que não é o teu
o saber que tens e que é o meu
a tua vida é o maior livro em que escrevo
nele não ficará registado tudo aquilo que não fiz
tudo aquilo que quero escrever mas de verdade temo
Carla Ribeiro
Publicada por Ricardo de Magalhães à(s) sábado, junho 06, 2009
sexta-feira, 5 de junho de 2009
Muddy Waters
Brincávamos na areia. Os nossos passos
eram naqueles dias a cadência
a música do sol
Ó estilhaços do tempo ainda vivos
projectados num filme que regressa
ao ritmo das ondas
e fica ao nosso alcance, até ao fim
da tarde pouco a pouco devorada
pla sombra desses toldos
dunas esquivas e pinhais
tão perto do que foi a minha infância
entre o riso dos primos e o mar
amigo de Brandão de António Nobre
batido pla nortada
Brincávamos na areia. como eu queria
roubar de novo a luz a essas praias
jogar ao prego, adivinhar
nas vozes infantis algum presságio
do céu ou do inferno - uma certeza
para sempre fiel a esse mundo
Fernando Pinto do Amaral
Publicada por Ricardo de Magalhães à(s) sexta-feira, junho 05, 2009
quinta-feira, 4 de junho de 2009
Lily Allen
Possivelmente, todos nós, nas terras da Europa, nos parecemos. Temos uma sensibilidade comum perante a vida e as suas mudanças. O que mais nos agrada é inventariar as coisas do progresso para não nos iludirmos com ele. Mas, acima de tudo, amamos tudo aquilo que afinal não está na agenda da celebridade. Amamos os quatro favores da pobreza, que são: o humor, o vínculo ao quotidiano, o respeito pela morte e por tudo o que a pode atrasar ou activar. E amamos os caminhos da terra que percorremos sem descanso, mesmo quando somos obrigados a um ofício sedentário.
Agustina Bessa-Luís
Publicada por Ricardo de Magalhães à(s) quinta-feira, junho 04, 2009
quarta-feira, 3 de junho de 2009
The Greatest Pics Vol. II

Fotografias de Joaquim Pedro Correia
Blá Blá / 5 . 6 a 4 . 7
Publicada por Ricardo de Magalhães à(s) quarta-feira, junho 03, 2009
terça-feira, 2 de junho de 2009
Charlotte Gainsbourg
Se tivesse ficado
longe, quando no princípio
senti a tua falta,
podia ter-te esquecido
agora, neste momento.
Isumi Shikibu
Publicada por Ricardo de Magalhães à(s) terça-feira, junho 02, 2009
segunda-feira, 1 de junho de 2009
White Lies
Quando ouço ao telefone a voz que brinca
e canta, sem saber, os dias novos,
pouco me importam tempo, espaço, luas,
ou maneiras sequer de ser humano.
Vagueio pelo ar, e arranco estrelas
ao cenário sem fim do universo;
e faço pobres contas aos cabelos
depenados no chão, verso após verso.
Nada é real, senão o meu desejo,
nem sei de lei nenhuma que não dobre
a dura mansidão da tua boca;
inventou-nos um deus, para que seja
veloz o lume na manhã sem nome,
e chama viva a voz que nos consome.
António Franco Alexandre
Publicada por Ricardo de Magalhães à(s) segunda-feira, junho 01, 2009
